O surrealismo contra os mistérios caseiros em Possession

Por Carolina Azevedo*

“O surrealismo é o descontentamento burguês. Como uma estética que almeja ser uma política, o surrealismo opta pelos oprimidos, pelos direitos de uma realidade marginal, não oficial. Mas os escândalos lisonjeados pela estética surrealista revelaram-se, em geral, nada mais do que aqueles mistérios caseiros obscurecidos pela ordem social burguesa: sexo e pobreza.”

Susan Sontag ocupou-se de analisar inúmeros aspectos da realidade, e um deles foi o surrealismo. Notadamente, no que diz respeito à fotografia, Sontag descreveu o surrealismo como um movimento, quem sabe uma característica, que se aproveita do real sem precisar distorcê-lo. É a generalização do grotesco e de suas nuances sem a necessidade de manipulação teatral do real, dado que a realidade já está cheia das fantasias espirituosas e sonhos eróticos que compõem o mundo dos surrealistas.

Assim como a fotografia, o cinema tem a capacidade de ser, mas também criar realidade. Portanto, o surrealismo se situa no coração não apenas da fotografia como diria a autora mas também do cinema — dizia isso também Jean Cocteau, surrealista por natureza e diretor de alguns dos ícones do gênero cinematográfico em questão.

Assim como Mirian Tavares, autora do texto que fecha nosso Dossiê David Lynch, discordo de Cocteau nesse ponto, mas é fato que o cinema implica na criação de um “mundo em duplicata, uma realidade de segundo grau, mais rigorosa e mais dramática do que aquela percebida pela visão natural,” como defendeu Sontag.

Possession, filme de 1981 dirigido pelo polonês Andrzej Zulawski, se aproxima de forma interessante da questão do surrealismo ao se ocupar dos mistérios da vida burguesa e torná-los verdadeiros monstros surrealistas que se materializam em um mundo escandalosamente banal.

Anna é uma mulher (mãe, esposa, amiga e amante) que se vê oprimida por todos os lados pelas morais da sociedade em que vive. Ao retornar à família depois de semanas viajando a trabalho, seu marido, Marc, descobre que ela estava o traindo com um homem chamado Heinrich.

Além da chocante descoberta, o marido é também surpreendido com o fato de que sua esposa teria alugado um apartamento, no qual cultiva um ser monstruoso que detém posse de seu corpo e espírito. Ao tomar o lugar da mãe como guardião de seu filho, Marc descobre também que há uma professora que é a exata imagem de sua esposa, mas com olhos verdes.

Desde a primeira cena, Possession cultiva um ambiente que remete à mediocridade, à banalidade e ao sentimento blasé de quem vive no transe circular entre família, trabalho e casamento. Anna anda rapidamente, vestida sempre nos mesmos tons de azul e com olhar que varia entre assombro e indiferença. Marc é agressivo e tedioso, sempre vestido em roupas de trabalho e tons que não se atrevem a fugir do cinza e bege. Anna parece pouco animada com o retorno de seu marido, que logo sente haver algo no caminho do casamento deles.

Ao confirmar tal fato, o bom marido torna-se um monstro, capaz de jogar mesas e cadeiras em sua mulher em pleno espaço público. A cena em que o casal se encontra no restaurante, logo no início do filme, define o tom que o filme carregaria ao decorrer da história: é a realidade que está sendo representada ali sob tons de cinza e azul, um marido que violentou sua mulher, que por sua vez vê-se presa a ideais e expectativas por todos os lados.

O tom é desconcertante, algo não está certo ali, mas a manipulação ou teatralização surrealista não é necessária para isso, o efeito seria apenas redundante naquele momento. É a partir dessa realidade que o filme passa a tomar rumos que vão em direção ao surreal no senso comum da palavra, uma realidade de fato elevada ao segundo grau.

A gênese do problema em Possession está na falta de satisfação sexual de Anna, cuja sexualidade é sufocada por seu marido e forçada por seu amante. Enquanto Marc simboliza o casamento e, portanto, a opressão e falta de satisfação dos desejo de Anna, Heinrich simboliza a fracassada “revolução” sexual que marcou a década de 1960, que libertou homens e colocou mulheres em uma encruzilhada que, por um caminho ou outro, leva à frustração nas mãos de homens. Como forma de fugir dessa pressão, Anna encontra a monstruosidade disforme que cultiva sozinha.

Para o mundo, a sexualidade feminina é como o monstro de Anna, indefinido, desconhecido, em constante mutação. O desejo feminino é uma anomalia, e por isso pode ser representado em Possession — assim como em outros filmes do surrealismo e do terror — como um monstro. O desejo de Anna era visto como monstruoso por Marc, então ela decide criar um monstro literal.

Ela foge do simbolismo fálico dos dois amantes em direção à fantasia amórfica de consumação verdadeira que representa o monstro. A incessante tentativa de controle pelos homens de sua vida faz com que Anna enlouqueça: sem poder expressar sua sexualidade ou perceber-se fora do alcance de um homem, ela encontra felicidade naquela criatura que simboliza sua verdadeira liberdade sexual.

Então surge aquilo que representa o regulador dos tais “mistérios burgueses”, o cristianismo. Com aquele mesmo olhar de aflição, Anna vai a uma igreja, onde observa a imagem de Cristo crucificado e logo em seguida segue para o metrô, com suas sacolas de compras como faria a boa esposa que ela era antes. No metrô, presenciamos a cena mais marcante do filme, em que a “possessão” verdadeiramente se concretiza em frente da câmera e Anna finalmente escolhe o desejo sobre a fé e o casamento.

Ao fim da trama, o ser chega a sua suposta imagem final: uma cópia exata de seu marido em aparência, mas sem seu temperamento narcisístico e obsessões violentas e com os olhos verdes da dublê de Anna. Ele é o “super-homem”, o ideal, a concretização do desejo da esposa. Tudo revela-se funcionar em Possession como dialética, dois personagens cujos duplos são dóceis e ainda assustadores, ideais que violentamente os substituem em um mundo de insolência burguesa. Da tese, a antítese de olhos verdes, seguida de uma síntese pouco satisfatória. Da realidade, o surrealismo, um acúmulo de singularidades, uma piada, uma paixão pela morte.

*Sobre a autora: Carolina Azevedo é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e editora-chefe da Revista Vertovina. Tem como principal interesse o cinema, sobretudo quando a arte se transforma em meio de mudança social, grito dos silenciados e resistência.

Referências:

Marc Arino. A la frontière de soi et du monstre : l’écriture cinématographique du corps dans Possession d’Andrzej Zulawski. Journée d’étude ”Langages, écritures et frontières du corps”, Feb 2012, SaintDenis, La Réunion. pp.125–134. ffhal-01217726f

Patricia MacCormack. MUCOUS, MONSTERS AND ANGELS: IRIGARAY AND ZULAWSKI’S POSSESSION. Cinema 1 / Articles (MacCormack), pp. 95–110. Anglia Ruskin University

Sontag, S., 1977. Sobre Fotografia. New York: Farrar, Straus and Giroux.